MUNDOS POSSIVEIS

Possibilidades acerca das poucas pessoas nas paisagens que não existem

«Nunca consegui viver nos mundos que me foram oferecidos: o dos meus pais, o mundo da guerra, o da política. Tive de criar o meu, como se cria um determinado clima, um país, uma atmosfera onde eu pudesse respirar, dominar e de me recriar a cada vez que a vida me destruísse. Esta é a razão de toda a obra de arte.»

Anaïs Nin

A criatividade do Desenho pode ser entendida como o “campo das possibilidades”, é através dela que se criam as ferramentas que incitam à construção de um conhecimento dinâmico, deixando espaço para o “novo” acontecer. O jogo anunciado desta criatividade específica promove a atracção de contrários, sentidos periféricos que descobrem a existência de diferentes graus de relações possíveis, como refere Bruno Munari «o produto da fantasia, tal como o da criatividade e da invenção nasce de relações que o pensamento cria com o que conhece (…) a fantasia deste modo será mais ou menos activa consoante o indivíduo tenha mais ou menos possibilidades de criar relações» (Munari, 2007,p.31),

A imaginação é o elo de ligação da fantasia com a invenção e a criatividade, o desenho actua na gestão destes valores funcionando como um “presságio”, dando soluções àqueles que a ele recorrem. O lado irresponsável da fantasia, a criatividade que gere o lado menos lógico do fantástico e a função mais coerente da invenção, constroem a potencialidade do desenho. Aos limites e paradigmas infiltra-se a capacidade de procurar valores periféricos, de modo a contornar o lado mais limitativo de dado sistema ou regra.

Á emancipação do novo pela intervenção da força imaginativa advertiu-nos Albrecht Dürer «aquele que pretende representar os sonhos deve fazer uma mistura de todas as coisas».O jogo de combinações permite um deslizar entre mundos, transportando-se o desejado, deste modo existirá um dinamismo caracterizado por um intercâmbio maior de informação. Neste plano existe a possibilidade da incongruência se manifestar livremente, onde o jogo dos contrários não é controverso. É um domínio onde o lógico e racional tendem a esbater-se das regras sequenciais e lógicas do mundo real. Nestes mundos existe uma “norma” que é a da “contra norma”. Este paradoxo pressupõe obviamente o conhecimento adquirido e “aceite” acerca do referente contra o qual se dirige a provocação e oposição. Assim sendo, este mundo possível só será fantástico e fictício tendo em conta o referente que é sempre a realidade. Será que a realidade terá também por extensão o que existe de mais irresponsável no mundo fictício? Será que o conhecimento obtido na possibilidade e ficção tende a acrescentar alguma coisa ao mundo actual?

A ficção caracteriza-se como uma porta aberta, uma arma de transcender labirintos. Esse mundo fictício cria a possibilidade àquilo que ainda não teve possibilidade de surgir, por isso o lado irreal poderá a determinado tempo ocupar um espaço para além da imaginação criadora. Denominar “mundo possível” é apelar a uma natureza fictícia e irreal por oposição ao seu referente real, é de igual modo atrair a este vocabulário a palavra Virtual. Palavra em voga nos tempos tecnológicos que correm. O seu anunciar leva-nos aos domínios do artificial, do irreal e do possível. Todos estes significados que constituem a semântica da palavra virtual têm uma origem distante, mas não em significado como refere Benjamin Wooley. O sentido com que utilizamos hoje a palavra encontra ecos na palavra “virtude” que por sua vez está relacionada com o acto de criação, com os poderes mágicos e divinos da criação. Aquele que têm o poder/virtude de inventar ou descobrir realidades virtuais, dá a conhecer o novo e a possibilidade de o experimentar.

«As próprias características desta arte [desenho] todas as visões, das mais sublimes às mais jocosas e iconoclastas são materializáveis nos projectos ou nas imaginações que este modo gráfico de se exprimir possibilita. O desenho tem desde cedo este carácter de tornar real aquilo que está para lá do plano, para lá do espelho, aquilo que é virtual»

Ana L.M. Rodrigues

A percepção ao experimentar a possibilidade que o desenho lhe proporciona, que pode existir como substancia ou apenas na imaginação, acaba por aceitar em determinadas circunstancias o virtual como realidade. Neste sentido podemos aceitar a capacidade visionária ao desenho. O sentido de “mundos possíveis”, ao desenhar-se surge a evidencia da possibilidade, desenhando transporta-se o “invisível” para o mundo real.

Um pensamento que se caracterize de lateral (no sentido da procura da periferia e da possibilidade), tende a reordenar padrões, os próprios padrões que a nossa mente tende a estruturar, desafiando-os libertando/reorganizando a informação, é neste sentido que se constitui em pensamento provocador. Lança um desafio à norma estabelecendo e possibilitando a gestão e desenvolvimento da criatividade.

O desenho cabe neste plano, nem pertence ao verdadeiro nem ao falso, possibilita-me a viagem a outras terras para além da minha, a novos lugares que têm como referencia este que já conheço mas a vantagem de ver e ter ainda mais, pelo menos a sua acção sugere essa possibilidade.

Mário Vitória, em algures, 16 de Julho de 2008

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