Mário Vitória, Galeria  MCO artecontemporânea, Porto

Drawing is the instrument for this project, he makes constant reference to the tradiction, uses and habits, political-social satire or even caricature on our everyday one. One parte of this project is more metaphysical, near the poetic surrealism. The references are multiple, but the “cares of Goya” are maybe the closest. Reach the human heart, the primitive essence when man becomes same to the animal. The representation of domestic animals, they express emotions and human gestures, in condition of beasts under the human dominance, the meaning of gestures or the expressiveness of the glances, they take the spectator to the imaginary universe of the fable, of the metaphors of the allegories.

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Ana Luísa Barão

O desenho, instrumento base deste projecto, gerador do imaginário que caracteriza as pinturas e gravuras de Mário Vitória, é da ordem do metafísico e está muito próximo da narrativa dos contos populares – na referência constante à tradição, usos e costumes – da sátira político-social ou mesmo da caricatura.

As referências são múltiplas, mas os Caprichos de Goya são talvez os mais próximos. Atingir o mais profundo âmago humano, a sua ontologia, a essência primitiva, naquilo que torna o Homem indistinto do Ser animal, parece ser o principal objectivo do artista. A representação de animais domésticos, que ora se exprimem em emoções e gestos humanos, ora na sua condição de bestas sob a dominação humana, o significado dos gestos ou a expressividade dos olhares, levam o espectador ao universo imaginário da fábula, das metáforas e das alegorias. Nas fábulas os personagens são geralmente animais que reflectem uma lição moral. Aqui a mensagem tem também um fundo moralista e é sobretudo o testemunho de experiências autobiográficas e de uma imagética consequência de uma pesquisa pessoal.

A vitória da debilidade sobre a força, da benevolência sobre a esperteza, o eterno confronto entre o bem e o mal, tudo mascarado por uma subtil violência, pela hipocrisia, presunção ou mesquinhez, transformam estes desenhos em drama irónico.

Várias noções são aqui analisadas. O homem, as coisas, os animais são antíteses das suas próprias propriedades. Enganam pela sua aparente ingenuidade. O espaço que ocupam na composição dita uma hierarquia de possibilidades interpretativas e são parte integrante de uma cosmogonia cujos elementos revelam um profundo sincretismo visual. O significado, esse, apenas, em parte, poderá ser descoberto. Enquanto representação, este imaginário, revela um significado que está para além do que é aparente.

Quer os desenhos-pintura, quer as gravuras, descrevem micro-narrativas fruto da sobreposição de diferentes contextos, episódios e situações, cujo carácter aleatório se revela um lúdico jogo de percepções.

As histórias descritas graficamente representam um mundo real e ao mesmo tempo repleto de fingimentos. Os vários protagonistas são inseridos na composição, que funciona como uma espécie de proscénio, obedecendo a uma ordem sequencial de acontecimentos. O bestiário humano espelha simultaneamente humanidade e crueldade. É nesse espaço fragmentado que tudo se manifesta: desconfiança, ambiguidade, perplexidade, a verdade da realidade e da ficção.

Uma noção de espaço pouco profundo delimitado por um cenário indefinido onde pessoas, animais e objectos se justapõem, e no qual estabelecem redes simbólicas de relações, define a estrutura base das composições. O mesmo espírito preside nas gravuras, mas a sua reduzida dimensão e uma aparente simplificação narrativa elimina esse suporte, transformando-o num vácuo onde o representado parece errar espontaneamente. A centralidade compositiva dos desenhos-pintura é aqui substituída por uma dispersão do figurado.

O facto de não terem sido atribuídos quaisquer títulos a estes desenhos vem reforçar a ideia de uma autonomia interpretativa que qualquer nomeação destruiria e que a dimensão narrativa das imagens, por si só, potencia.

A inexistência de linhas que conduzam a uma leitura do enunciado levam o observador, a partir dos fragmentos figurativos, a delinear os contornos dum enredo que pode estar ou não próximo das intenções do artista. No entanto, a perfusão de elementos, aparentemente desconexos e dispersos na composição constitui um importante ponto de referência para a construção de possíveis analogias. É a composição que rege toda a panóplia de afinidades que os desenhos suscitam.

Tratam-se de narrativas, mas nelas não domina qualquer sequência linear, pelo contrário, a sensação de que o autor faz permanentes avanços e recuos, conduz-nos do fim para o princípio e deste para o final da história. Os retrocessos e avanços são permanentes e jamais consequentes. Em sentido figurado, as notas de rodapé, os complementos directos e indirectos fazem parte de um discurso que se pretende plural e nunca enumerado.

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