No decorrer da minha formação na Faculdade de Belas Artes do Porto comecei a desenvolver um trabalho em paralelo aos demais que realizava ali. Uma necessidade de registar um conjunto de imagens sobre um suporte foi um momento. As imagens iam sobrevivendo no meu pensamento, na minha secretaria, no meu diário visual, no chão do meu ateliê. Em contacto competiam umas às outras, existiu assim uma vontade de um enunciado próprio por muito confusa que fosse a sua manifestação. O que queria com aqueles registos a carvão sobre um papel frágil? Mesmo com alguma distância e volume de trabalho, não sei ao certo. Vai-se desenhando para passar o tempo… contudo a viver este “fenómeno” verifiquei que a imagem sobrevivia mais uma vez, agora colocada em relação com outras, suscitavam novas mensagens. Posteriormente percebi que estava de um modo inconsciente a sugerir pontos de quebra/pausa, sentia que a imagem banal teria outra vez força para “ferir”. Quanto às composições e materiais escolhidos, esses pertenciam a um legado escolar bem impregnado no lixo tóxico da minha consciência.
Nestes trabalhos de papel existia uma história pessoal, que acaba por definir parte da natureza da resposta à questão: o que é um desenho? Marcar, rasgar, ferir, demarcar, arrastar…. Para lá da solidez do suporte papel sobre parede, tinha o carvão como médium de registo fabricado por mim, resultante da queima dos galhos mais estreitos de um número simbólico de oliveiras que tenho em casa. A pressão exercida sobre o carvão torna o desenho característico, o pau parte-se de um modo imprevisível suscitando golpes e texturas particulares.
Resta dizer que o concluir deste trabalho era ele próprio simbólico, este carvão livre de composições químicas estava aprisionado à sua própria durabilidade natural de matéria orgânica queimada. Ao fim de um tempo sabia que o desenho desapareceria, assim como o enunciado que aquele papel frágil continha.

Mais tarde o desenho é apresentado na faculdade, desenvolvo então um projecto partindo das primeiras manifestações, mais interventivo, ou melhor, mais directo. O título que dou a esta serie de desenhos “IL VIAGGIO” está relacionado com as viagens que fiz por Itália no decorrer do programa de estudos Erasmus. Fica a simbologia da viagem, da viagem das imagens, dos conteúdos, dos sonhos, das memórias, tormentos e expectativas.

Numa das apresentações de trabalhos escolares, apareceu alguém interessado em adquirir estes desenhos, deste modo deu-se durabilidade a estas manifestações. Estes trabalhos chegam ao público pela primeira vez em 2006, numa exposição de peças pertencentes a uma coleção privada (na câmara municipal de Santo Tirso).

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