Deviation TUTTI FRUTTI for Whole family : Person as Paradox in Arthobler Lisbon, 5th November 2009 / Desvio TUTTI FRUTTI para toda a familia: O indivíduo como Paradoxo na Arthobler Lisboa, 5 de Novembro de 2009
The individual as paradox, on the work of Mário Vitória
Valter Hugo Mãe
Mário Vitória’s exuberant images attach to his prodigious imagination which allows him to create the most extensive narratives on a single canvas, with eminent dominion of metaphor, always bordering on the critic of the Human theatre.
Notwithstanding that Mário’s references range from Disney to Alfred Hitchcock, placing ingenuity, melancholy, aggression and even the grotesque in the same scene, always resulting in a clear violence of existence, as if existence, by definition, is dependent or born out of violence.
The irony in how this is assumed is accentuated on the present exhibit, above all on the canvas of dead nature being invaded by recognizable shapes from the childhood imaginary, mixing classic features with deep pop culture, between what might be immediately understood as a relationship between art and non-art, or minor art.
This intermission of such figures on the canvas is the sarcastic mean which Mário found to denunciate the decline of good will, as if a disgraceful fate was hopeless, as if disgracing was the following prerogative of contemporary society and as if these values were already forced upon us by infancy games and plays, through that world of toys and images which detained us so lengthy and innocently in the tender years of our lives.
In conclusion, everything lives in conflict, in a state of fundamental crisis which evokes all and all defends, under penalty of perishing in such an ephemeral participation in life.
Everything survives – ironic condition of being alive, survival -, like in a game where the body, the character, the quirk, the misfortune, or any other premise can rebel itself against our own viability or the viability of our intents, to hamper or impede us in our tracks.
Before Mário Vitória’s canvas all things in the world, and all stories, can be found, through his amazing capacity to leave clues without leaving them too clear in the open, without ever removing the possibility of the viewer to create as well, which is the same as saying that he leaves enough room for each and everyone of us to identify with till exhaustion, as it happens with great works, obviously.
O indivíduo como paradoxo, sobre o trabalho de Mário Vitória
valter hugo mãe
A exuberância das imagens de Mário Vitória prende-se à sua imaginação prodigiosa que lhe permite criar as mais extensas narrativas numa só tela, sendo exímio no domínio da metáfora, sempre tão rente à crítica do teatro humano. O trabalho deste artista é, assim, feito de uma profundidade admirável, mesclando opostos para acusar a complementaridade das forças, como se inevitavelmente fossemos todos origem de bem e de mal. Não é de estranhar, por isso, que a amplitude das referências de Mário Vitória possa começar na Disney e chegar a Alfred Hitchcock, colocando numa mesma cena a ingenuidade, a melancolia, a agressão e até o grotesco, num resultado que acaba sempre por ser uma violência clara da existência, como se a existência, por definição, dependa ou se faça da violência.
A ironia com que isto é assumido acentua-se na exposição que agora apresenta, sobretudo nas telas em que naturezas mortas se vêem invadidas por figuras reconhecíveis do imaginário infantil, numa mistura de um certo clássico com um profundo pop, entre o que poderia ser imediatamente entendido como uma relação da arte com a não-arte, ou arte menor. A citação directa que o artista faz dessas personagens de banda desenhada ganha um relevo fundamental, sendo a partir delas que se destroem as ideias preconcebidas do que é um quadro (do que é a arte), como se de uma contaminação se tratasse, vinda do quotidiano desprevenido da infância. Esta intromissão de tais figuras na tela são a sarcástica maneira que encontrou para denunciar o declínio das boas vontades, como se fosse irremediável um destino de desgraça, como se desgraçar o próximo fosse apanágio da sociedade contemporânea e como se, mais concreto ainda, esses valores nos fossem já incutidos pelas brincadeiras de miúdos, por esse mundo de brinquedos e imagens com que nos detivemos longa e inocentemente nos tenros anos das nossas vidas.
Em suma, tudo vive no conflito, em estado de crise fundamental que tudo convoca e tudo obriga a uma defesa, sob pena de perecer numa participação tão efémera na vida. Tudo sobrevive – condição irónica de estar vivo, a da sobrevivência –, como num jogo em que o corpo, o carácter, o equívoco, o azar, ou qualquer outra premissa se pode rebelar contra a nossa viabilidade ou contra viabilidade dos nossos intentos, para dificultar-nos ou impedir-nos de vez o caminho.
Perante as telas de Mário Vitória todas as coisas do mundo, e todas as histórias, podem ser encontradas, pela espantosa capacidade de deixar pistas sem nunca se tornar demasiado definido, sem nunca nos retirar a possibilidade de criarmos também, que é o mesmo que dizer que nos deixa um longo espaço para a identificação, onde creio que caibamos, mais rápida ou mais lentamente, uns e outros até à exaustão. Como acontece nas grandes obras, obviamente.











